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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

'Cloud Atlas' é uma sinfonia visual conduzida com harmonia

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Tanta coisa para contar e tão pouco tempo. Esse é o desafio principal que o trio de diretores Tom Tykwer ("Perfume"), Larry e Lana Wachowski ("Matrix") se dispuseram a enfrentar diante da adaptação do livro "Cloud Atlas", aqui batizada de "A Viagem". O título brasileiro se apoia na vocação esotérica da premiada obra escrita por David Mitchell em 2004,  e tenta nortear o público curioso por temas espiritualistas, mas o eixo do filme reside na chance de desenrolar  novelos dramáticos ao longo de cinco séculos diferentes.

Para amenizar a potencial desorientação de acompanhar seis diferentes tramas, espalhadas entre o século XIX e o futuro pós-apocalíptico distante, os diretores estruturaram cada linha do tempo em três atos simples, alinhando apresentação, conflito e resolução de cada trama paralelamente.

A natureza do livro de Mitchell facilita a imersão nessa mandala fragmentada por idas e vindas, através de gerações. A quantidade de narrativas pode, a princípio, soar vertiginosa, mas cada história contém essencialmente uma premissa familiar, sem reviravoltas complicadas. As tramas entrecortadas vão sendo acomodadas dentro de um painel que se complementa à medida em que o filme avança.

As premissas das histórias de cada segmento são as seguintes:

"O Diário do Pacífico da Adam Ewing"
Atravessando o Oceano Pacífico em 1849 e aparentemente sofrendo de uma infecção, o jovem advogado Adam Ewing tenta retornar vivo aos EUA. A presença de um escravo fugitivo na embarcação será crucial nessa jornada.



"Cartas de Zedelghem"
Em 1936, se movendo entre a Inglaterra e Escócia, o compositor Robert Frobisher escreve  sua obra prima, o "Sexteto Cloud Atlas", enquanto acompanha fervorosamente o desenrolar do diário de Adam Ewing. Sua carreira e a reputação do seu amante, Rufus Sixmith,  podem ser expostas caso Frobisher não ceda à chantagem de um velho compositor que deseja roubar  as suas idéias.



"Meias-vidas: O Primeira Mistério de Luisa Rey"
Após conhecer o físico nuclear Rufus Sixmith, na São Francisco de 1973, a jornalista Luisa Rey se envolve em uma conspiração que pode levar a um desastre ambiental. 



"O Medonho Calvário de Timothy Cavendish"
No ano de 2012, o titubeante Timothy Cavendish é um velho editor de livros que, para se esconder da máfia, acaba preso em um asilo. Abusado pela equipe da casa de repouso ele organiza um plano de fuga. 



"Uma Prece de Sonmi-451"
Na futurística e distópica Nova Seul de 2144, a sociedade fabrica clones e os trata como reles servos sub-humanos. No entanto, um grupo rebelde resgata a serva Sonmi-451 que inspirada na dramatização da vida de Cavendish pode mostrar ao mundo que os seres geneticamente modificados têm direitos e aspirações como todas as pessoas.



"A Travessia de Sloosha e tudo depois"
300 anos no futuro, Zachry e sua tribo vivem isolados na ilha que foi conhecida como Havaí . Sob a proteção da deusa Sonmi, eles enfrentam o terror de um bando de bárbaros canibais. Fora da ilha a maior parte da população do planeta pereceu, mas um grupo conhecido como Precientes ainda detém acesso à tecnologia. Com os dias contados na face da terra, a última esperança dos Precientes  para contatar as colônias fora do planeta vai depender da ajuda de Zachry. 

Os seis contos aglutinados formam um mosaico em que um elemento de um período  vai ecoar mais tarde em outro segmento. Palavras, gestos, imagens e atores se repetem, criando em efeito de reverberação ao longo do filme. O elenco composto por Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, Keith David, James D'Arcy, Xun Zhou, Susan Sarandon, Hugh Grant entre outros faz uma dança das cadeiras cósmica, ressurgindo sob diferentes formas, gêneros e quilos de maquiagem. Através da recorrência dos intérpretes, a estratégia do trio de diretores foi um risco artístico monumental, assumido para solidificar a sensação de ligação entre as tramas.  O tamanho da ambição esbarrou apenas no limite técnico de transformar brancos em asiáticos, negros em caucasianos e homens em mulheres. A única opção nesse ponto é superar a barreira de descrença e abraçar as performances, como se estivéssemos diante de uma peça, onde a trupe se reveza em diferentes papéis. Os atores mergulharam na experiência de viver múltiplas personas transitando do extravagante para o minimalista com destreza. Especialmente Broadbent, Wishaw e Dona Bae. Mesmo Tom Hanks, que  construiu a carreira fazendo variações do mesmo nice guy, encontra bons momentos, especialmente sob a forma de vilões desprezíveis. 

Gráfico via Cinema Blend

A grande conquista de "A Viagem" é produzir uma experiência coesa com  transições fluidas, que conversam entre si, dissolvendo frases e sons da cena anterior dentro da narrativa seguinte, aos poucos estabelecendo a cumplicidade entre cenários distantes, separados pelo tempo e por gêneros cinematográficos específicos. "O Diário do Pacífico de  Adam Ewing" é  primeiro elo dessa corrente transcendental apresentado como um filme de época; As "Cartas de Zedelghem" incorporam o drama romântico; "Meias-vidas: O Primeira Mistério de Luisa Rey" é um thriller investigativo; "O Medonho Calvário de Timothy Cavendish" vai pelo caminho da comédia britânica; "Uma Prece de Sonmi-451" se inspira na atmosfera sombria da ficção científica nos moldes de "Blade Runner";   "A Travessia de Sloosha e tudo depois" avança mais ainda no tempo em aventura pós-apocalíptica.

O tema central do filme é a recorrência de padrões ao longo da história da raça humana. Ganância, brutalidade e opressão sempre retornam em ciclos. Em contraponto está o argumento de que apenas um único gesto pode alterar todo o curso da história ou de ao menos uma estória.   A natureza monumental da produção eleva esses didatismos para o patamar do espetáculo,  e mesmo flertando com o campo gravitacional do cliché o filme sai ileso na maior parte do tempo. A trilha composta pelo diretor Tom Tykwer, se apropria do conceito dos retornos  e circula perseguindo certas melodias, buscando traduzir a sinfonia conceitual que o título original "Cloud Atlas", sugere. O "atlas da nuvem", por sinal representa o grande aglomerado de espíritos que se conectam ao longo da eternidade.

Possivelmente, uma das produções independentes mais caras da história, "A Viagem" é um trabalho artístico bem executado, com três cineastas trabalhando em conjunto, que se mantém estilisticamente coerentes. A direção compartilhada é um caso raro que permite observar  a bagagem sci-fi dos Wachowskis completando a poesia visual de Tom Tykwer. 

"A Viagem" está atualmente em cartaz no Brasil.

Nota 8,0

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