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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

'Django Livre' reprocessa western spaguetti com sangue e comédia em fábula sobre herói negro


 O Cavaleiro Negro>>>
Quentin Tarantino é um nerd obcecado por filmes, séries de TV e músicas. Possivelmente a maior autoridade em cultura pop trabalhando em Hollywood hoje em dia. Esse conhecimento enciclopédico gerou um universo à parte, que obedece regras próprias. A cada trabalho, o diretor abre uma porta para sua dimensão paralela onde ninjas, mafiosos, mulheres invencíveis e assassinos por natureza têm gosto musical excepcional e articulam diálogos peculiares, em que cada palavra é escolhida com rigor, destinadas a interpretações afiadas.

A janela que agora se abre, mostra o amálgama entre dois gêneros muito caros no caldeirão de influências do cineasta: o molho spaguetti dos faroestes à italiana e a onda de filmes de blaxploitation dos anos 1970, como "Superfly" e "Black Ceasar".  "Django Livre" ("Django Unchained") costura essas relíquias cinematográficas e as recobre sobre a estrutura de uma fábula de vingança passada durante o período da escravidão nos EUA. O vingador da vez é o escravo Django (Jamie Foxx), que conquista a chance de enfrentar seus algozes, graças ao oportuno encontro com o caçador de recompensas Dr King Schultz (Christoph Waltz). 


A jornada desse herói negro é construída como uma elipse vigorosa. A noite que ganha alforria, será a última vez que avistaremos as marcas de chibata nas costas de Django. Logo ele vai descobrir que é um hábil pistoleiro, caçando fugitivos da lei ao lado do sensei Dr Schultz. 

A dupla percorre desertos e montanhas geladas, belamente capturadas pelo fotógrafo Robert Richardson, se preparando para o confronto final no covil que guarda a amada Broomhilda Von Shaft (Kerry Washington). Saído da ópera "Siegfried", de Wagner a escolha do nome da esposa de Django revela o perfil de contos de fadas, com cavaleiros em armaduras e princesas trancadas em masmorras metafóricas. O sobrenome Von Shaft, insinua que Django e Broomhilda são antepassados de um certo policial durão dos anos 70 chamado John Shaft. Can you Dig It? Afinal não seria uma história passada há mais de 150 anos, que impediria o usual jogo de referencias pop do cineasta.

Jamie Foxx percorre o arco do seu personagem com economia, uma escolha arriscada, especialmente considerando a intensidade dos seus coadjuvantes. Mas quando a fúria silenciosa irrompe pela primeira vez na tela, na qual o ex-escravo pune os brancos que o torturaram, ela explode sobrecarregada de simbolismo. Fica claro que o filme quer construir um novo ícone negro, nos moldes dos thrillers protagonizados por Richard Roundtree na década de 1970, quando a comunidade afro-americana se enxergou enaltecida em heróicas versões black dos tradicionais paladinos da justiça de olhos azuis. O clima de exaltação ganha enfase na seleção musical matadora, repleta de raps enérgicos como "100 Black Coffins"  de Rick Ross e "Unchained (The Payback/Untouchable)"  de James Brown & 2Pac, em simbiose com as trilhas dos westerns "My Name is Trinity" e o tema do Django original, formam a base perfeita para a epopeia afro-italiana.

O nobre caçador de recompensas, Schultz, com sua ética resoluta, estabelece a princípio uma conveniente parceria de negócios com Django, mas  imbuído de compaixão, decide transformar o alquebrado escravo em um matador implacável. Interpretado por Waltz, brilhante nessa segunda colaboração com o diretor de  "Bastardos Inglórios", o ator saboreia discursos floreados, em um papel escrito especificamente para ele. Curiosamente Leonardo DiCaprio seria a primeira escolha para viver Hans Landa, mas Tarantino decidiu na época que o austríaco Waltz, seria melhor como o ardiloso caçador de judeus.


Agora DiCaprio, pôde interpretar o primeiro grande vilão da sua carreira e executa seu personagem no limite da extravagância, sem romper a linha do exagero. Monsieur Candie, o escravocrata sulista, dono do latifúndio ironicamente apelidado Candyland, é entusiasta de torneios de mandingo (lutas até morte entre escravos). O insidioso Candie é uma construção aterradora de DiCaprio, atuando fora da zona de conforto dos papéis de mocinho, ele divide com Schultz, o mesmo apreço pela ordem e os bons costumes, mas seu gosto pela selvageria o colocam diametralmente em oposição ao pistoleiro benevolente.

Para examinar a natureza da performance, o diretor costuma inventar situações onde seus personagens interpretam identidades falsas, dando margem a situações imprevisíveis carregadas de tensão. Dr Schultz, é o matador que usa o disfarce de dentista enquanto rastreia foragidos da lei. Para se infiltrar entre as linhas inimigas e reaver Broomhilda, ele e Django engendram uma farsa elaborada, desenhando o campo de batalha verbal entre Waltz e DiCaprio. Se os tiroteios e a carnificina podem ser fascinantes, o prazer do roteiro reside no desenrolar dos argumentos, onde qualquer vacilo pode colocar tudo em risco.

Colaborador de longa data na filmografia do diretor, um Samuel L. Jackson envelhecido sob maquiagem, vive o astuto Stephen, braço direito e tutor de Candie. Indo além da função de alívio cômico, ele é o negro da casa grande, "o mais desprezível dos escravos", como explica Django, pois tem o poder de infligir sofrimento entre seus pares, fazendo isso com prazer.

Em um raro caso que o diretor escreve uma personagem feminina cujo destino depende de interferência externa, a bela Kerry Washington, funciona como a dama em perigo  que deve ser resgatada pelo salvador destemido. Ao longo do filme ela surge em flashbacks e  se materializa em delírios carregados de poesia visual, dando a medida do afeto e da saudade que movem Django.

Encontro de Djangos
A participação especial de Franco Nero, é uma das homenagens do cineasta ao diretor Sergio Corbucci, um dos grandes estetas dos westerns rodados na Itália e responsável por clássicos como o "Django" de 1966 e "O Vingador Silencioso", de 1968. Outra ponta, a obrigatória aparição do próprio diretor, agora tentando simular o sotaque australiano, é, apesar de breve o grande mico do filme. Nem mesmo a forma como Tarantino sai de cena justifica tanta falta de habilidade.

A escravidão como pano de fundo automaticamente causou mal estar nos EUA, atiçando ânimos como o do diretor Spike Lee. O intenso uso da palavra nigger (forma pejorativa de se dirigir aos negros nos EUA), faz parte do contexto histórico e evoca a linguagem suja dos filmes da geração blaxploitation.  No entanto, com toda a violência contra negros, "Django Livre" não diminui a questão, pois o foco da trama é o suspense e a diversão . Surpreendentemente o filme mais engraçado de Tarantino, "Django" caminha sobre a margem da paródia, lembrando a comédia absurda "Banzé no Oeste", de Mel Brooks na sequência dos cavaleiros mascarados, liderados por Don Johnson. De chorar de rir.

A sanguinolenta catarse de "Django Livre" sofre um pouco com os 165 minutos de duração, possivelmente devido a ausência da editora Sally Menke, falecida em 2010 e presente em todos os filmes da carreira do diretor. Personagens como a vaqueira mascarada, interpretada por Zoe Bell, de " A Prova da Morte", aparecem momentaneamente, sugerindo histórias que se perderam na ilha de edição. Pequenos pecados de um filme empolgante, que mira no entretenimento, manipulando os signos cinematográficos que o modelaram para chutar mais uma vez o balde da realidade e da exatidão histórica. 

Nota 9,0



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