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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Insegurança urbana entre muros afetivos em 'O Som Ao Redor'

A Vida dos Outros>>>
"O Som Ao Redor", primeiro longa de ficção de  Kleber Mendonça Filho, é uma jornada através do universo particular dos condomínios nos grandes centros urbanos. Com longa experiência em curtas metragens, o jornalista e  crítico de cinema, sempre tratou de temas como a solidão e medos modernos em filmes como "Eletrodoméstica", de 2005. Esse curta aliás, é uma espécie de ensaio para "O Som Ao Redor", tendo algumas idéias  reaproveitadas como a sequência da máquina de lavar erotizada.

Usando uma rua na cidade de Recife como pano de fundo, o roteiro escrito por Kleber Mendonça, descortina aos poucos seus habitantes, criaturas insulares que seguem empurrando seus cotidianos entre neuroses privadas e a constante sensação de insegurança pública. Enquanto tenta descobrir quem arrombou um carro em frente ao seu prédio, João (Gustavo Jahn) se depara com a chegada de um grupo de vigilantes liderado por  Clodoaldo (Irandhir Santos, de Tropa de Elite 2), oferecendo serviço de segurança privada nas redondezas. Paralelamente, Bia (Maeve Jinkings) é uma dona de casa que suporta o tédio do apartamento e os constantes latidos do cão do vizinho fumando baseados às escondidas. No centro do tabuleiro está o velho Francisco (personagem de Waldemar José Solha), dono de parte dos imóveis da rua e que ainda exerce influencia na região, exalando o coronelismo de outras épocas.
O roteiro observa entre as frestas de janelas e horas vazias, as rachaduras morais dessa fauna. Interações entre parentes, vizinhos,  patrões e seus empregados estão impregnadas por abusos velados, especialmente na hierarquia social: do porteiro que arranha um carro por vingança à dona de casa que ofende uma doméstica. O bom elenco, composto quase totalmente por rostos desconhecidos, como Gustavo Jahn e Maeve Jinkings, aliado à naturalidade dos diálogos conferem um realismo semidocumental ao filme.

Mesmo com a suposta segurança instaurada pela patrulha na rua, resiste a percepção  de  algo trágico a espreita. O desenho de som criado por Simone Dourado, alimenta um sentimento incômodo, como um som abafado. Um zumbido quase inaudito que vai tomando cada imagem. Sem recorrer a truques narrativos e com uma trama aparentemente banal, o diretor cria uma atmosfera sufocante, sugerindo em pequenos incidentes (como o genial pesadelo da menina, uma das cenas mais aterrorizantes do cinema  recente), que algo de muito ruim está para acontecer. 

As ansiedades da classe média, submersa em seus pequenos infernos, ganham enfoque através do registro peculiar de Kleber Mendonça. Partindo do microcosmo do bairro onde  o próprio diretor mora, o filme enquadra inquietações universais, como a solidão, paranoias e o vazio existencial. Munido de um amplo conhecimento cinematográfico,  acumulado durante os 12 anos que trabalhou como crítico e curador de mostras de cinema, seu filme tem influências do thriller "Cache" de Michael Haneke  e revela em certas surpresas surreais a predileção (explícita no curta "A Menina do Algodão") pelo cinema de horror de John Carpenter.

"O Som ao Redor" é antes de mais nada uma intensa experiência sensorial, carregada de imagens hipnóticas, que encontra na sutileza, uma forma incomum para retratar o isolamento afetivo e os espectros da violência que rondam as cidades brasileiras. 

Nota 8,5

"O Som Ao Redor" está atualmente em cartaz no Brasil.

A maior parte dos curtas de Kleber Mendonça Filho podem ser vistos na página oficial do filme.


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