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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Os suplícios da vida diante da morte no dolorido 'Amor'

Só sei dançar com você>>>
Michael Haneke é um cineasta conhecido por causar desconforto em seus espectadores. Ao longo da carreira ele vem articulando os seus temores e neuroses através de filmes como "Funny Games", "A Professora de Piano" e "Caché". Ao escrever o roteiro de "Amor" ('Amour", 2012), Haneke partiu de uma experiência na sua família para refletir sobre a perda de um ente querido. 

O diretor abre o filme com uma equipe da policia forçando a entrada no apartamento selado e tomado de um forte cheiro. Em um dos quartos jaz o corpo de uma senhora cercada de flores. Sobre essas imagens desconcertantes surge o título  original "Amour". Como em um filme policial, já sabemos que algo ruim aconteceu ali, agora precisamos reunir os elementos que causaram aquela fatalidade.

O drama se concentra na relação do casal de octogenários, Georges e Anne, interpretados por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, ícones do cinema francês, que se reencontram na tela quatro décadas depois de  "Io Uccidi , Tu Uccidi". Após muitos anos dividindo o cotidiano entre as batidas do coração, a rotina dos dois é interrompida quando Anne sofre um derrame que paralisa metade do seu corpo e lentamente consome suas capacidades mentais. 

A partir desse ponto se inicia o soturno e doloroso processo de evanescimento de Anne diante de Georges. Movido pelo remorso, o marido interpretado por Trintignant, assume o pacto de cuidar da esposa em casa até o último momento. A cena mais emblemática é a primeira vez que Georges ajuda Anne a se levantar do sofá após o acidente vascular. Enquadrados como um casal dançando, esse momento coreografa delicadeza e sofrimento, amor e morte. George a abraça, aludindo a décadas de afeto e como se novamente fosse a primeira vez, ela o acompanha. O descompasso do casal, com extrema dificuldade  tentando se mover por alguns centímetros, comunica ali uma vida inteira de carinho e cumplicidade em contraponto com uma situação constrangedora e sofrida.

A vida a dois se converte em batalhas diárias, onde Anne se entrincheira contra o esforço dos que tentam mante-la viva. A atuação de Riva, que à medida que a condição da sua personagem se deteriora, fica mais imobilizada sob murmúrios desconexos, comunica em pequenos gestos a agonia de ter sido alienada de todas as escolhas. A sensação de claustro é ampliada pelo cenário, um velho apartamento parisiense que exala o mofo e o peso do tempo nas suas paredes. Ao mesmo tempo, estão impressas ali camadas da vida do casal de professores de música, rica em erudição e lembranças. Invadindo essa fortaleza da solidão, em duas ocasiões, um pombo impertinente perambula pelo apartamento despreocupado. A exaustiva tentativa de Georges para capturar o pequeno invasor é um tour de force que relembra a fragilidade dos personagens em paralelo a imobilidade que agora os cerca. 

A complexidade dessas circunstâncias sublinha o conflito entre o desejo de partir em oposição ao apego incondicional. Aos poucos a força de vontade de Georges vai sendo minada à beira do abismo doloroso onde Anne se encontra. Fica nas mãos de George decidir quanto desconforto vai ser infligido à sua esposa. 

Acusado de ser frio e sádico, Haneke é um autor que sempre se preocupou com a capacidade do ser humano em lidar com a miséria e a dor. Seus filmes tratam de temas como misantropia, auto-flagelação e tortura. Em "Amor", o olhar clínico do diretor austríaco explora até onde a compaixão pode ir.  A história do casal que passou tantos anos juntos serve como objeto de estudo dos vários sentidos da palavra amor, expresso nas entrelinhas,  dos pequenos rituais adquiridos com a intimidade até um derradeiro ato de misericórdia.

Além da austeridade formal, usando enquadramentos estáticos e ausência de uma trilha sonora, a sutileza é a maneira como pequenas informações sobre o passado dos personagens são inseridas. A relação com a música e o distanciamento da filha Eva ( Isabelle Huppert) são insinuados indiretamente, deixando para espectador a tarefa de deduzir quem foram essas pessoas. No epílogo, Haneke apresenta uma sequência enigmática, aberta a interpretações, com um reencontro espectral do casal, retomando sua rotina uma última vez.

Como se espera, chegar até o final de um trabalho do cineasta austríaco é um desafio exasperante, no qual os sobreviventes são deixados com questionamentos nada trivais ecoando no fundo da cabeça. "Amor" é uma obra madura que contrapõe com sobriedade os arquétipos de eros e thanatos, amor e morte, duas forças primordiais descritas na mitologia grega entrando em um conflito constante, onde a pulsão da vida tem que encontrar a melhor forma de enfrentar sua finitude.

Nota: 9

O filme de Haneke saiu premiado de vários festivais e conquistou a Palma de Ouro em Cannes ano passado. No dia 24 de fevereiro, "Amor" concorrerá  ao Oscar 2013 nas categorias de melhor filme, melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Emmanuelle Riva, que é a pessoa mais velha a receber a indicação. 

O filme está atualmente em cartaz no Brasil.

"Amor" ("Amour")
Drama/Romance
Roteiro: Michael Haneke
Direção: Michael Haneke
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William ShimellFrança/Alemanha, 2012
Duração 127 minutos


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