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sexta-feira, 28 de junho de 2013

'Além da Escuridão' é um potente espetáculo que se move mais rápido do que o pensamento


E La Nave Va>>>
Quando o universo de Star Trek (ou Jornada nas Estrelas para quem tem mais milhagem espacial) foi realinhado em uma realidade alternativa no reboot de 2009, o diretor J.J. Abrams e seus roteiristas encontraram um solução brilhante para  contar novas histórias que podiam respeitar cânone original e simultaneamente ligar seu motor de dobra por caminhos nunca vistos anteriormente.

Com um universo completamente inesperado e que ainda assim guarda similaridades com o que aconteceu na cultuada série de TV dos anos 60, a rejuvenescida tripulação da USS Enterprise ganhou uma vitalidade bem vinda. A direção de Abrams se afastou das ponderações filosóficas que marcaram as aventuras de Kirk, Spock e cia, embutindo um ritmo frenético e sequências de ação tão empolgantes quanto os filmes da saga Star Wars. Para a velha guarda de fãs isso foi controverso, mas a decisão de encorpar a franquia como um espetáculo tenso e pirotécnico foi  essencial para atrair a atenção do público para uma propriedade intelectual que perdera relevância a cada derivação televisiva e novo longa metragem que foi sendo lançado nos últimos 30 anos. 

Ao reciclar uma idéia que pertence ao inconsciente coletivo, Abrams seguiu a mesmo trilha aberta pela trilogia cinematográfica do Batman e na recente reinvenção do James Bond, dando um tratamento de choque e aproximando a narrativa para uma audiência cada vez menos interessada em questões humanistas e alegorias políticas.

Na segunda viagem da Enterprise nesse universo alternativo, os roteiristas Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof  se arriscaram ao escalar um personagem muito importante da mitologia original como o grande vilão. Vivido pelo sempre impecável Benedict Cumberbatch e  envolto em mistério, ele teve seu nome alterado para não estragar a surpresa. Aparentemente movido por uma vingança contra a Federação dos Planetas, o terrorista John Harrison deflagra a trama ao deixar um rastro de destruição em Londres, ecoando os fantasmas do 11 de setembro.  

Desde os acontecimentos do filme anterior a Frota Estelar percebeu que estava indefesa contra os inúmeros desafios que espreitam além da fronteira final e iniciou uma corrida armamentista contra essas ameaças. A partir dai o roteiro traça  paralelos com a Guerra ao Terror e  coloca Harrison escondido em um território inimigo, uma referência ao refúgio de Bin Laden nas terras afegãs. Nesse contexto, a tripulação de Kirk recebe a missão clandestina de encontrar o personagem vivo ou morto, uma ação contra os regulamentos da Frota que espelha a caçada dos EUA pela cabeça do líder da Al Qaeda.


O filme se move rápido, com reviravoltas surgindo o tempo todo, não dando muito tempo para refletir sobre o que está acontecendo. A influência de Abrams pela coreografia cinética de Spielberg sempre foi deliberada e ele abre o filme com uma sequência de perseguição que poderia estar em "Caçadores da Arca Perdida". 

A montanha russa segue implacável, mas é o carisma dos personagens, e especialmente a dinâmica entre Chris Pine e Zachary Quinto que alimenta o reator de fusão de "Além da Escuridão - Star Trek". Pine é uma ator mais equipado dramaticamente do que seu antecessor, o já folclórico William Shatner, e sua versão do Capitão Kirk se apoia em todos os predicados estabelecidos do personagem ao longo dos anos, sem resultar em uma imitação. O Spock de Quinto, apesar da ascendência racional do planeta Vulcano, se difere do original por não ter passado pelo ritual que eliminou seu lado emocional. 

Peter Weller, o eterno Alex Murphy de Robocop, retorna ao cinema depois de um limbo fazendo aparições em série de TV. Foi justamente sua participação em um episódio de "Fringe", que chamou a atenção de Abrams, produtor do programa e decidiu colocar  o ator de "As Aventuras de Buckaroo Banzai"  em evidência novamente. 

Em um filme com tantos atores em cena, Karl Urban, Anton Yelchin, Simon Pegg e John Cho,    que interpretam os principais membros da trupe original da Enterprise tem pouco a fazer. Para manter a velocidade da trama, o roteiro deu ao menos um momento decisivo na história para cada um deles e tenta justifica a presença dos atores no set de filmagem. A única que sobressaiu um pouco mais em relação ao primeiro filme foi Uhura, interpretada de forma arisca por Zoe Saldana. Sua história de amor com Spock além de garantir algumas risadas, permite que ela participe mais da trama no clímax do filme.

Atentos ao muxoxo dos fãs  em relação a falta de personalidade do vilão Nero no primeiro filme, dessa vez  os escritores escolheram um antagonista mais forte  tanto dentro quanto fora da história. Naturalmente parte do seu apelo é oriundo  da vantagem genética de ter existido no passado da série e na imaginação dos fãs. A atuação gélida de Cumberbatch, fundindo Hanibal Lecter com Jason Bourne, é uma ameaça formidável e constante para a astúcia de Kirk e o intelecto de Spock.


A amizade da dupla e sua relação de confiança e admiração mútua é o eixo sobre o qual o drama se desenvolve. Eles se identificam por terem sofrido grandes perdas em suas vidas e o senso de auto-sacrifício é a grande lição que o jovem Capitão da Enterprise está processando ao longo da história.

"Além da Escuridão - Star Trek" é um espetáculo grandioso, com uma trama simplificada, e ação desenfreada que se sustenta bem em toda sua duração. Mas depois que o filme se encerra, o cérebro pode começar a funcionar e nesse momento de reflexão certas motivações e soluções apresentadas vão perdendo o sentido e percebemos que ele não contém a aquele espírito contagiante do primeiro filme. 

A trilha sonora de Michael Giacchino, fiel escudeiro do diretor é um dos pontos altos, alimentando a narrativa com vitalidade. Para os mais nerds  a faixa "The San Fran Hustle", usada na sequência onde Spock e Khan se enfrentam, existe uma referência ao tema "Amok Time", que ficou célebre no episódio da série clássica, em que Spock e Kirk  mediam forças em um combate corpo a corpo.

Em sua segunda jornada, ficou claro que o upgrade no funcionamento dos motores da franquia é uma garantia que a missão de cinco anos pelo desconhecido continue para uma nova geração de trekkers. O trabalho de Abrams  reinventado essa série foi tão eficiente, que do outro lado da galáxia, a Lucasfilms  lançou um chamado convocando o diretor para ser o responsável na missão de manter os sabres de luz brilhando no próximo filme de Star Wars. Vida longa e próspera  e que a Força esteja com ele em julho de 2015 quando "Star Wars: Episódio VII" chegar aos cinemas.

Um detalhe precioso: afinal os desenhistas de naves do século 23 decidiram incluir cintos de segurança nas naves estelares.

Nota 8,5

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