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terça-feira, 2 de julho de 2013

Crítica: 'O Homem de Aço' é uma reinvenção bombástica e sem charme para o Super-Homem

O Dia em que a Terra Parou>>>
Faz 30 anos, desde "Superman II", que a indústria cinematográfica vem penando para colocar o filho de krypton voando em direção ao sucesso nas telas mais uma vez. Cada sequência lançada na década de 80 foi alienando o público e minguando resultados nas bilheterias. Entre os anos 90 e meados da década passada, a Warner injetou milhões em filmes que nunca saíram do papel.  Os bastidores dos repetidos fracassos com diretores como Tim Burton, McG, J.J. Abrams, Wolfgang Petersen e Brett Ratner fazem parte do folclore de Hollywood e poderiam render um filme à parte.

Finalmente, em 2006, Bryan Singer, que capitalizava a boa recepção da franquia dos X-Men,  teve a  oportunidade de ressuscitar o herói com "Superman - O Retorno". Mas a trama sofreu com o excesso de reverência  pelas  produções estreladas por Christopher Reeve e patinou em uma história morosa, em que o maior inimigo do homem de aço foi uma montanha de kryptonita. Junto com a frustração, reforçava-se o temor de que um dos maiores ícones da cultura pop planetária não funcionaria nos dias de hoje.

Com este problema nas mãos, a Warner reuniu um time criativo liderado por Christopher Nolan, que tem a reputação do gigantesco sucesso da trilogia Batman sob suas asas, ao lado de David Goyer ("Batman Begins") escrevendo o roteiro e Zack Snyder ("300") na direção. Com a tarefa de recontextualizar o herói messiânico em um mundo cínico e desconfiado do escoteiro de cuecas vermelhas, os criadores de "O Homem de Aço" escolheram seguir pela rota que os quadrinhos tomaram nos anos 80 e abordaram o super-herói com uma proposta mais sombria e violenta.
Ponto crucial na mitologia do Super-Homem, a destruição de Krypton, seu planeta natal  ganha destaque na abertura. Partindo do conceito de que toda a tecnologia desse admirável mundo novo foi criada a partir da  engenharia genética, o desenho de produção concebido por Alex Mcdowell ("Minority Report - A Nova Lei", "O Corvo") se manifesta em formas tecnorgânicas  cujo DNA carrega traços do trabalho de H.R. Giger na série de filmes "Alien". 

A trama abre com o tradicional alerta de Jor-El (Russel Crowe) sobre o iminente fim do planeta Krypton. Mas um golpe militar orquestrado pelo General Zod (Michael Shannon) leva o cientista a tomar medidas desesperadas para garantir o futuro de Kal-El, seu filho recém-nascido. Snyder converte Jor-El em um herói de ação, partindo para uma sequência  mais instigante do que tudo visto no recente "John Carter - Entre Dois Mundos". Seguindo a cartilha dos quadrinhos, o golpe militar é debelado, Zod e seus asseclas são condenados à Zona Fantasma enquanto o pequeno bebê é enviado em direção à Terra, deixando seu mundo moribundo para trás.


Quebrando o ritmo aqui e ali, a  narrativa se alterna entre a vida adulta de Clark Kent (Henry Cavill) perambulando pelo mundo como um anônimo e os flashbacks da sua infância, que mostraram como certas decisões e tragédias moldaram seu caráter. Nesta versão, Jonathan Kent, o pai adotivo vivido por  Kevin Costner, é uma figura ambígua e menos otimista. Em alguns momentos, ele discursa sobre o grande destino reservado para o garoto alienígena no futuro e, em outros, aconselha-o a sacrificar vidas em detrimento de manter seus poderes em segredo.

Os trabalhos de Christopher Nolan são conhecidos por tentar espremer alguma lógica em premissas fantasiosas e sua influência como consultor e co-autor da história fica clara na introdução de Lois Lane (Amy Adams). Nos quadrinhos sempre foi problemático uma repórter investigativa que jamais percebia a identidade do Super-Homem. Em "O Homem de Aço", o encontro de Lois e Clark é mais crível e elimina a eventual necessidade de lidar com aquela inverossimilhança herdada de tempos mais ingênuos.


O elenco de forma geral funciona com o que eles tem para trabalhar. Cavill se empenha no papel título, em uma dinâmica onde ainda não existe a dupla personalidade Clark Kent/Super-Homem. Ele tem a fisicalidade certa para o papel e ao menos  transmite o ar de correção que o personagem requer. Amy Adams é uma Lois convincente que ajuda o herói em momentos importantes para, em seguida, funcionar como um donzela em perigo. Michael Shannon, que  construiu sua carreira com personagens ameaçadores e à beira da demência, dá um passo atrás na atuação e compõe um Zod monótono, cuja única motivação é justificada pela sua constituição genética. Os personagens coadjuvantes, como Perry White (Lawrence Fishburne) e o grupo de militares representados por Christopher Meloni e Harry Lennix,  estão ali apenas para servir como a perspectiva humana no meio do conflito entre semi-deuses, tem zero carisma e ficam perdidos na trama. Uma das melhores coisas é a vilã Faora, interpretada pela alemã Antje Traue. Ela é a mais ameaçadora dos seguidores de Zod  com seu olhar frio e mortal. 


A direção de Snyder está mais contida, esquivando-se dos efeitos de câmera lenta e partindo para uma câmera trêmula para instilar mais realismo. Curiosamente ele faz uso dos mesmos efeitos de zoom celebrizados na série "Battlestar Galactica" e usa Tahmoh Penikett e Alessandro Juliani, dois atores que ficaram conhecidos no seriado de ficção científica. Ao encontrar as respostas sobre a sua origem, Clark e Snyder aproveitam para se divertir com os poderes do Super-Homem em uma montagem que faz referência às primeiras histórias do personagem, quando  só podia saltar longas de distâncias bem antes de aprender a voar.

O compositor Hans Zimmer tem grandes trilhas sob a sua batuta, mas faz alguns anos que vem trabalhando no piloto automático. Ele criou uma trilha sonora que, se não fica guardada na memória, também não compromete a fluência. O trabalho dele foi um dos mais ingratos, afinal,  a música criada por John Williams em 1978 permanece imbatível como a grande definição do que o Super-Homem representa no inconsciente coletivo.

Pouco depois de se ambientar com suas raízes, Clark vai ser testado em um brutal confronto com suas origens na forma de Zod e seu exército que chegam à Terra em busca de uma chave para a reconstrução de Krypton. A violência e a devastação causadas pelo embate entre esse novo Super-Homem e a invasão alienígena é o ponto central da controvérsia. Se no passado não era possível realizar visualmente a escala de destruição que super seres  deixariam no mundo, em tempos de "Transformers" e "2012" , apenas o bom senso é o limite. 

Algo que sempre incomodou nos filmes recentes do Batman foi a falta de sutileza de Nolan ao transmitir suas idéias e o problema retorna no roteiro de "O Homem de Aço". O Super-Homem é apenas mais um arquétipo na longa linhagem descrita em  "O Herói de Mil Faces"  de Joseph Campbell, mas os roteiristas transformam as alegorias cristãs que sempre acompanharam o personagem em melancias voadoras: Clark tem 33 anos, passou um período como nômade, se oferece para salvar a raça humana, em uma cena posa de braços abertos sobre o planeta e em outra pede conselhos sob uma janela com a imagem de Jesus. Essas repetições refletem a falta de confiança dos roteiristas na capacidade do público em compreender a história.

O terceiro ato de " O Homem de Aço" é um espetáculo bombástico, que faz jus às brigas vistas no anime/mangá "Dragon Ball". Tanto que o autor de quadrinhos, Mark Waid, rotulou a luta entre Super-Homem e Zod como "Disaster Porn". Se nas encarnações anteriores  faltou ação, agora o problema foi o excesso. Nesse ponto, o personagem começa a se afastar da sua representação clássica, do herói sem falhas, e acaba se tornando também um descontrolado agente da destruição. 

Podemos racionalizar considerando que o Super-Homem mal consegue lidar com seus poderes e possivelmente depois da tragédia colateral causada, vai se preocupar mais com as vidas em sua volta antes de partir para um confronto. Ou simplesmente admitir que Snyder, Goyer e Nolan erraram na mão ao considerar que o problema que afastava o herói do público era seu altruísmo desmedido. Apesar de ser uma tradução épica das grandes batalhas dos quadrinhos, o festival de prédios esfacelados e vítimas deixadas no final do filme retira a aura de protetor da humanidade que o Super-Homem sempre representou.

"O Homem de Aço" é visualmente impressionante, e traz pontos positivos ao  se distanciar dos filmes anteriores, eliminando alguns conceitos tradicionais dos quadrinhos. Lamentavelmente, perdeu-se a oportunidade de produzir uma reinvenção memorável do Super-Homem  para o século 21, ao focar muito mais nos efeitos especiais do que na construção de personagens carismáticos. Esmagado sob a atmosfera sombria das silhuetas dos ataques do 11 de setembro, ainda que impactante, o espírito inicial da nova aventura se dissolve em uma experiência pesada e com poucos momentos de verdadeira emoção. Em uma história sobre a vitória da esperança, é irônico que as escolhas dos roteiristas tenham se pautado mais no desespero do estúdio. 

A batalha da Warner para reconstruir sua principal propriedade intelectual sai com vencedores e perdedores. Foi um grande investimento para o estúdio, que apostou todas as fichas na mão pesada de Snyder e na falta de sutileza do roteiro de Goyer e Nolan. Com os bons resultados na bilheteria (que ultrapassou os 500 milhões de dólares mundialmente), a continuação "O Homem de Aço 2", assim como uma nova safra de super-heróis, vão entrar em produção como a esperada adaptação da Liga da Justiça. 

Fica a questão: será que eles estão realmente preparados para fazer esses filmes?

Nota 7,5






'Cloud Atlas' é uma sinfonia visual conduzida com harmonia







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