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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Crítica: 'Círculo de Fogo' é um brinquedo gigante para crianças crescidas


Fúria de Titãs>>>
A atual geração de cineastas é a primeira que, sob as condições orçamentárias adequadas, só encontra limites no tamanho da sua própria imaginação. E quando um diretor como Guillermo Del Toro, um dos maiores nerds trabalhando com blockbusters atualmente, tem confiado em suas mãos todos os brinquedos que uma empresa de efeitos especiais pode gerar, o mundo ganha um filme como "Círculo de Fogo" ("Pacific Rim"). A história co-escrita por Del Toro e Travis Beacham, convida meninos de todas as idades, para testemunhar a uma brincadeira de criança transplantada  para a tela em escala colossal.

Assumidamente influenciado pelos mechas ou robôs controlados por pilotos humanos, em uma analogia direta aos cokpits de aeronaves, Del Toro já disse que seu amor pelo gênero remonta ao seminal  mangá de 1958, "Tetsujin 28-go" (cuja versão anime ganhou no Brasil o nome de "Homem de Aço"). A forja que modelou "Círculo de Fogo" reaproveitou peças originais de séries animadas como "Evangelion", "Macross" e "Robotech", além dos seriados tokusatsu, que tem em Power Rangers seu maior representante ocidental. E para se conectar de alguma forma com o filme, ajuda se o espectador tiver sido exposto previamente à essa linha de produção japonesa de máquinas antropomorfizadas. A ascendência das criaturas alienígenas vem da linhagem real de Godzilla, o rei de todos os monstros gigantes. Reside  aqui a melhor idéia da trama, justificando por que afinal esses kaijus, como são chamados os monstrengos descomunais, sempre aparecem em cidades costeiras perto do oceano pacífico. Um portal extra-dimensional se abriu no fundo da região conhecida como o círculo de fogo, localizido próximo da Ásia.
Sem perder tempo contando histórias de origem, uma breve narração nos informa que desde de 2015, a Humanidade esteve enfrentando ondas de ataques saídos dessa brecha entre  universos. Como linha de defesa, as Nações Unidas, juntaram forças construindo robôs metálicos descomunais, batizados de Jaegers,  (que significa caçadores em alemão). Para comandar essas máquinas,  são necessárias duplas ou trios de pilotos conectados mentalmente entre si. Essa ligação é um processo extremamente invasivo, pois memórias e sensações também são compartilhadas no processo pelos ocupantes dos Jaegers.



Está montado assim o palco para uma versão em carne, osso e metal de um desenho animado, que não tem pretensões além de mostrar monstros se digladiando com robôs gigantes. O espetáculo visual ficou nas mãos do cinematógrafo Guillermo Navarro, colaborador em todos os filmes de Del Toro. Usando basicamente noite, chuva  e água como cenários o desenho de produção é para comer com os olhos.  Desde as ruas de Hong Kong, apinhadas de neons à moda de "Blade Runner", passando pelo quartel dos Jaegers,  persiste uma textura suja, orgânica e bem palpável nos trabalhos do cineasta mexicano. 

Outra influência recorrente são os livros de terror de H.P. Lovecraft. Del Toro estava desenvolvendo uma adaptação do livro "Nas Montanhas da Loucura", na mesma época que começou a trabalhar em "Círculo de Fogo". Quando o outro projeto foi abortado pela Universal, o cineasta trouxe todo o desejo de ver criaturas gigantes destruindo o planeta para esse filme. 


No entanto, o diretor precisa de um mínimo de estrutura emocional para manter as engrenagens desse colosso funcionando. Se esquivando de maiores elaborações dramáticas, as relações interpessoais são superficiais e os personagens genéricos.  Foi uma decisão clara não investir tempo construindo uma base emocional mais realista e isso tem o seu preço na falta de gravidade do filme.  Um dos personagens centrais da trama é o piloto Raleigh Becket, vivido pelo britânico Charlie Hunnam, conhecido do seriado "Sons of Anarchy".  Ele é um ex-piloto de Jaeger, que perambula à sombra de uma grande perda em combate. Mas após uma década de guerra,  o mundo está sucumbindo diante da chegada de seres cada vez maiores. Desesperado, o líder do projeto dos Jaegers, o marechal Stacker Pentecost (Idris Elba) convoca Becket para ajudá-lo em uma última ofensiva. Tom Cruise quase interpretou esse papel e talvez ajudasse nas bilheterias que minguaram nos EUA, mas Elba, que interpreta o asgardiano Heimdall em "Thor", sempre transborda presença na tela e cabe perfeitamente como a força de coesão entre os pilotos. 



A outra ponta humana dentro e fora dos robôs é a inexperiente Mako Mori, interpretada pela japonesa Rinko Kinkuchi. O roteiro posiciona  a moça como a outra metade do pendulo emocional, ao lado de Becket, e Mako também traz no peito uma profunda ferida deixada pela guerra aos monstros. O relacionamento entre eles, assim como todos os elementos humanos do filme são rascunhos simples que funcionam meramente para conectar as grandes sequências de ação. Curiosamente, apesar da proximidade em nível mental, a relação entre o casal de pilotos não se move em direção do típico romance.


Fortemente inspirado em filmes de guerra, isso fica implícito no desenho do jaeger veterano Gipsy Danger, que tem detalhes baseados nos aviões da Segunda Guerra Mundial. Existe até uma intriga dentro  do grupo de pilotos que é um decalque de "Top Gun". No outro lado do front militar está a dupla de nerds interpretada por Charlie Day e Burn Gorman  fazendo as vezes dos cientistas loucos das antigas produções B de ficção científica, eles são uma das coisas mais divertidas no filme. A interação entre o histérico Day e o malandro Ron Pearlman, um trambiqueiro que negocia pedaços das carcaças dos kaijus no mercado negro de Hong Kong é hilariante.  Esses pequenos detalhes da mitologia do filme são fascinantes, ao revelar em  fragmentos, como o impacto que a convivência com bestas apocalípticas mudou a cultura e até a espiritualidade no mundo.


A trilha sonora, criada por Ramin Djawadi, autor do glorioso tema de "Game of Thrones", e Tom Morello do Rage Against The Machine,  se sobressai entre a atual safra de temas inócuos. A dupla que já havia colaborado em "Homem de Ferro", criou um tema com riffs hard rock que colam na memória ( veja e ouça nos vídeos abaixo).



Em filmes nessa escala gigantesca, faz uma enorme diferença ter um realizador que traz interesse legítimo pelo tema. Del Toro injeta todo o seu amor pela iconografia de cidades de papelão em ruínas e  gigantes feitos de borracha, que habitam suas memórias e criou uma aventura absurda, ingênua e impressionista. Um pouco de recheio emocional legítimo dentro dos chassis robóticos teria dado ao filme empuxo suficiente para se afastar da simples esfera do entretenimento inconsequente.  No entanto, dentro do seu cockpit imaginário, o diretor preferiu usar os punhos de ferro gigantes para construir um parque de diversões ao longo de duas horas. Nesse caso a missão de "Circulo de Fogo" foi cumprida.


Nota 7,5


Assista abaixo as sequências de abertura e de encerramento de "Círculo de Fogo".


Imaginary Forces - Pacific Rim: End Titles from Imaginary Forces on Vimeo.


Imaginary Forces - Pacific Rim: Main Titles from Imaginary Forces on Vimeo.


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