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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Crítica: 'Gravidade' eleva o gênero dos filmes-catástrofe em um espetacular voo pelo espaço

 A Terra é Azul>>>
O cinema tem entre suas principais diretrizes o transporte de audiências para lugares distantes, nos quais dificilmente poderíamos estar, e paradoxalmente tentar estabelecer uma conexão emocional baseada na familiaridade do espectador. Levando essa máxima ao limites das órbitas da imaginação, o cineasta mexicano Alfonso Cuarón trabalhou por anos para recriar na tela um das experiências mais singulares que o ser humano poderia experimentar. Em "Gravidade", que marca seu retorno às câmeras desde a obra-prima "Os Filhos da Esperança" (2006), Cuarón descola as forças gravitacionais que esmagam nossos corpos sobre  a Terra e nos  lança  em um voo intenso pelo espaço.


A premissa deste combinado de ficção cientifica, filme catástrofe e teste de sobrevivência, coloca uma dupla de astronautas americanos tentando se manter viva após  um monstruoso desastre em meio à uma missão de manutenção. Os protagonistas, interpretados por Sandra Bullock e George Clooney,  são os únicos rostos humanos que serão vistos e, além de três vozes no rádio, a única companhia ao longo da projeção será a imensidão negra e a massa azulada girando abaixo dos seus trajes. Comprimido por essa limitação narrativa, o roteiro escrito por Cuarón e seu filho Jonas realiza saltos mortais gigantescos e mantém a história se movendo como uma montanha russa. E "Gravidade" nunca para de se mover em longas sequências sem corte (técnica desenvolvida pelo cineasta em "Os Filhos da Esperança"), que se transformam em um majestoso balé cinematográfico. A abertura do filme tem um ousado  take  de 12 minutos que amplia a sensação de estarmos imersos no ambiente fluido do espaço orbital.

Literalmente perdida no espaço, a inexperiente doutora Ryan Stone (Bullock) tem o que pode ser considerado um dos piores dias de trabalho na história do cinema,  esquivando-se de destroços mortais, vendo seu oxigênio se esvair e contando com uma chance remota de voltar para casa.

"Gravidade" se filia a  obras na linhagem de "O Naufrago" e "Enterrado Vivo", em que um único personagem se torna o fio condutor da trama.  As engrenagens  enferrujadas do cinema-catástrofe foram recobertas sob um espetáculo visual jamais apresentado nessa escala. A jornada de sobrevivência vai se tornando mais elaborada, aproveitando cada terabyte de tecnologia para criar um filme de ação que mantém o coração na boca até o segundo final.

A tensão não é o único combustível propulsor do filme e, em meio à torrente de  adrenalina, o cineasta encontra espaço para ponderar além da natureza humana em uma situação extrema. Fazendo alusões nada sutis à vida uterina e ao renascimento, Cuarón apresenta uma protagonista cujas feridas guardadas colocam em cheque  a própria razão de seguir existindo. 

A lista de atores que estiveram ligados ao filme é quase tão longa quanto o tempo levado para a produção sair do papel, e nomes como Robert Downey Jr., Angelina Jolie e Scarlett Johansson foram cogitados antes da escalação de Clooney e Bullock. O filme confia no carisma de seus intérpretes  para injetar nos personagens uma dimensão que o roteiro não teria tempo para estabelecer. 

A decisão de ter o foco em uma personagem frágil e alquebrada exposta as hostilidades do ambiente mais perigoso para a vida humana eleva os riscos e Bullock, que voltou a atrair a atenção das bilheterias em comédias inconsequentes, carrega o filme praticamente sozinha, fazendo  uma donzela em perigo capaz de cuidar de si mesma, mas que precisa superar limites externos e internos.


Como 90% do que se vê na tela foi criado antes de os atores entrarem em cena, as conquistas técnicas foram fundamentais para dar forma a uma história extremamente visual. O desenho de som consegue ser coerente com as condições do espaço e usa cada ruído e respiração dentro dos capacetes para manipular reações, deixando o ar rarefeito na sala de projeção. E para quem resiste aos óculos 3D, pense duas vezes, pois  "Gravidade" fez o melhor uso dessa tecnologia até hoje.

Cuarón dirigiu o grande filme do ano, produzindo uma aventura capaz de ser ao mesmo tempo empolgante e intimista, habilmente sobrepondo tensão e encantamento em uma história acessível que não perde a oportunidade de incorporar simbolismos sobre a vontade de se manter vivo. Certamente o tamanho da sua ambição não queimou na reentrada.

Ironicamente, Ed Harris interpreta a voz da torre de comando da NASA, reprisando sua função no filme "Apollo 13".

Nota 9,0

"Gravidade" estréia em 11 de outubro no Brasil.






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