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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Crítica: 'Em Chamas' reflete sobre os jogos de poder dos governos e da indústria de entretenimento

O Show Deve Continuar>>>
A safra atual de blockbusters se nutre basicamente de adaptações de propriedades intelectuais como quadrinhos e livros populares.  Na última década, a literatura voltada para adolescentes encontrou duas máquinas de fazer dinheiro nas versões das aventuras dos jovens bruxos de Hogwarts e nas disputas amorosas entre vampiros e licantropos descamisados. A caçada pelos novos "Harry Potter" e "Crepúsculo" resultou em uma larga trincheira de fracassos como "Eragon" e "A Bussola Dourada", até que em 2012, a esperança dos povos famintos do futuro distópico de "Jogos Vorazes", se transformou no mais novo salvador das bilheterias em Hollywood.

Cerca de 200 anos no futuro, após uma guerra civil que devastou os EUA, foi erguida a nação de Panem, um estado ditatorial onde não existem liberdades individuais. Diferentemente de outras obras que tentam capturar corações inexperientes e famintos por mundos de fantasia, o que mais surpreende na receita dos "Jogos Vorazes" é o passo além da aventura e de intrigas românticas, fazendo paralelos históricas ao nazi-facismo e a queda da Bastilha, e inserindo uma interessante alegoria sócio-política sobre a atual sociedade do espetáculo. Não por acaso, Panem, deriva do latim Panis et Cicenses, estratégia usada na Roma antiga, de oferecer "Pão e Circo" para amenizar o descontentamento da população. Inspirado na estratégia do império romano, que usava gladiadores para manter a população anestesiada, o governo promove anualmente os Jogos Vorazes, transformando a transmissão da matança entre jovens pela TV, em uma ferramenta para espalhar o medo e regular a esperança por uma vida melhor.

Dirigida por Gary Ross, a adaptação do primeiro livro da trilogia escrita por Suzanne Collins, custou modestos 78 milhões de dólares e retornou quase 700 milhões para a Lionsgate catapultando Jennifer Lawrence para o estrelato no processo.  A soma inédita para um estúdio de médio porte, só havia sido alcançada até então pelos seis grandes (Warner, Sony, Universal, Fox, Paramount e Disney). Esse fenômeno logo colocou a sequência "Em Chamas" em produção e pouco mais de um ano depois, o filme, agora sob a direção de Francis Lawrence ("Eu Sou a Lenda"), chegou ao cinema movido pelo dobro do orçamento anterior, disposto a quebrar novos recordes de arrecadação. 

Antes de o show continuar, o roteiro de Simon Beaufoy Michael Arndt, a partir do texto de Collins, usa dois terços de sua duração estruturando dramas da protagonista Katniss Everdeen (Lawrence) enquanto abre a cortina que encobre a fumaça que sobe no cenário político. A crescente insurreição dos 99%, representados pelos 12 distritos fica mais evidente, levando ao poder dominante a mudar a regras do jogo, descendo o braço com mais força sobre qualquer traço de desobediência civil. Assim como os tiranos da história, os roteiristas precisavam adicionar riscos maiores para manter a audiência satisfeita novamente. Dessa vez o plano será confrontar todos os Vitoriosos remanescentes das edições anteriores dos Jogos.

O elenco liderado pela carismática Jennifer Lawrence, tem um punhado de atores veteranos como Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Donald Sutherland, Phillip Seymour Hoffman e Jeffrey Wright emprestando peso para uma produção que nem sempre conta com grandes interpretes na ala mais jovem. Os dois vértices do triângulo amoroso de Katniss, vividos por Liam Hemsworth e Josh Hutcherson, continuam sendo o elemento mais insípido desse universo.

O conflito amoroso é a melhor idéia dessa história e está ali como um chamariz premeditado pela trama. Eles só continuaram vivos  porque forjaram uma paixão, conquistando a simpatia da audiência. Fazendo um jogo de espelhos entre  filme e sua própria plateia, ironizando a necessidade em acompanhar romances fabricados pela maquina do entretenimento. Tratados feitos marionetes, o prejuízo emocional ou físico dos interpretes é irrelevante, diante do propósito hipnótico nesse Big Brother.


Com um orçamento mais polpudo "Jogos Vorazes: Em Chamas" é tecnicamente mais apurado,  a fotografia algo de Jo Willems (substituindo o veterano Tom Stern) abandona a câmera tremula que escondia parte da violência em cena, acrescentando mais consequência às sequências de ação. Os efeitos especiais criados em parte pelos gênios da Weta Digital são mais convincentes, e bem aplicados no terceiro ato, quando a competição acontece. A partir dai o drama dá espaço para que os jogos mortais apresentem novas formas de ceifar vidas. Como no desafio do primeiro "Jogos Vorazes" os personagens acabam em uma situação de solução impossível.  A virada de mesa foi uma boa saída, literalmente quebrando a quarta parede em uma bela cena que evoca "Matrix" e o "Show de Truman", obras símbolos da geração que começava a comentar os efeitos da imersão em realidades virtuais e paraísos artificiais. 

Essa jornada da heroína tomou caminhos insuspeitos, levando dois capítulos, antes de desenhar na tela Katniss como a candidata a salvadora desse mundo. É raro ver uma grande produção confiante na capacidade de atenção da audiência, consumindo a maior parte de sua duração em conflitos internos e temas como resignação e auto sacrifício. Fazendo uso da tensão social  gerada pela repressão do estado, em imagens que remetem aos abusos do poder e os "black blocs" da vida real, a trama nunca perde o ritmo. Jogos Vorazes: Em Chamas" é entretenimento juvenil que traz embutido metáforas capazes de instigar no DDA mais disperso com  timelines e memes, uma fagulha de reflexão. 

A virada final é um gancho inesperado vindo da esquerda, digno dos finais de temporada de seriado de TV,  que guarda uma intrigante semelhança com o "Império Contra Ataca". 

Nota 7,5

"Jogos Vorazes: Em Chamas" está em cartaz nos cinemas brasileiros.
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