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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Crítica: 'O Lobo de Wall Street' constrói um retrato tragicômico das safadezas do capitalismo



Na Roda da Fortuna>>>
Desde que adquiriu os direitos sobre o livro "O Lobo de Wall Street" em 2007, que o ator Leonardo DiCaprio vem batalhando para transformá-lo em filme e Martin Scorsese sempre foi sua primeira escolha. Os dois trabalharam no roteiro nos estágios iniciais, mas no período que o projeto esteve nas mãos da Warner Bros, Ridley Scott quase o dirigiu. Quando o estúdio passou a produção para o independente Red Granite Pictures, Scorsese recebeu carta branca para fazer o que quisesse. Guiado pelas memórias do investidor Jordan Belfort, o filme abre as portas para o mundo de sexo, drogas e crimes financeiros praticados entre os anos 80 e 90. 

O despudorado registro dos excessos e maracutaias de Belfort (DiCaprio) demonstra como os esquemas para acumular milhões de dólares se tornam uma receita imprevisível  se misturados com doses cavalares de arrogância e um coquetel de substâncias químicas. Assim como em obras da estirpe de "Cassino" e especialmente os "Bons Companheiros", o filme acompanha ascensão e queda de um grupo de criminosos, em que vendedores de lorotas são os bandidos da vez. Ainda que despido da costumeira violência gráfica e dos banhos de sangue distribuídos entre os mafiosos, a trama golpeia os sentidos com situações desconcertantes enquanto a gangue de investidores dilapida recursos alheios.



Comédia não é o primeiro elemento que associamos às carreiras de Scorsese e Dicaprio, mas a dupla usou o intenso roteiro de Terence Winter  para converter  os desvios de dinheiro e caráter descritos no livro em uma festa  desconcertante. A orgia promovida pelos ratos de colarinho branco  é carregada nos ombros por Dicaprio, que passou anos esperando para entrar na pele do corretor vindo do nada que movimentou mais de um bilhão de dólares nos anos 90.

A corte de trapalhões bem sucedidos é liderada por Jonah Hill, em mais uma atuação repleta de improvisos como Donnie,  o alucinado sócio de Befort. Sob os efeitos de múltiplas toxinas, Hill e Dicaprio protagonizam uma sequência de comédia física que poderia ter saído de um filme do Gordo e Magro ou Jerry Lewis.  

Surfando no renascimento da sua carreira, Matthew McConaughey, devorando a cena, em uma ponta de alguns minutos, como o corretor Mark Hanna. Seu discurso logo no início da história apresenta a realidade nua e crua do mundo dos investimentos. Saboreando cada palavra, o personagem desvenda as ligações intricadas entre o consumo de cocaína, masturbação e sucesso na carreira.

Curiosamente, o elenco foi povoado por cineastas como Spike Jonze e John Favreau. Rob Reiner, diretor de "Harry & Sally - Feitos um Para o Outro", não atuava há uma década foi convocado para ser o pai do protagonista. Scorsese disse que a vantagem de trabalhar com diretores é que eles sabem se comportar no set de filmagens.

Apesar de ser novata Margot Robbie, chama atenção como Naomi, uma ex-modelo que se torna a segunda esposa de Belfort. Com um legítimo sotaque nova-iorquino, a estonteante australiana se defende bem no meio da matilha, amargando na carne as loucuras do marido.

 
Inicialmente com mais cerca de quatro horas de duração, o filme  teve seu lançamento adiado até ser reduzido aos 180 minutos que fluem em alta velocidade, graças a edição de Thelma Schoonmaker, fiel escudeira do diretor desde 1981. Sempre tem  pelo menos alguma coisa interessante acontecendo na tela fazendo a jornada épica se tornar um passeio alucinante no parque de diversões dos privilegiados.

Belfort realizou o sonho americano movido pelo lema "ganância é bom", imortalizado pelo herói capitalista Gordon Gecko, no filme "Wall Street - Poder e Cobiça", de Oliver Stone. Embriagado pelo sucesso ele acabou se tornando vítima da mitologia criada em torno de si.

O “Lobo” é apenas mais um na longa linhagem de psicopatas funcionais que o diretor de "Taxi Driver" retratou no cinema. Dirigindo como um garoto cheio de energia, Scorsese não quer julgar esses trapaceiros e prefere usar o humor negro e o exagero para meditar sobre a glorificação de predadores se banqueteando em um mercado de pernas e oportunidades abertas.

Nota: 9,0

"O Lobo de Wall Street" está sendo exibido nos cinemas brasileiros.



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