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quarta-feira, 5 de março de 2014

Crítica: 'Vidas ao Vento', o voo final de Miyazaki é um libelo ao espírito criativo

Sonho de Ícaro>>>
Combustível para filmes como "Esses Homens Maravilhosos e Suas Máquinas Voadoras" ou "O Aviador", o desejo de voar é um dos elementos mais recorrentes na carreira de Hayao Miyazaki. Especialmente em seus trabalhos seminais ("O Castelo no Céu", "Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos" e "Porco Rosso - O Último Herói Romântico”), em que o animador se deixou levar pelos ventos  fortes que sopram na imaginação. Retornando ao tema em "Vidas ao Vento", Miyazaki  pinta com licença poética a biografia de Jirô Horikoshi, o designer responsável pelas aeronaves usadas durante a Segunda Guerra Mundial pelo Japão.

Anunciado como o voo final do aclamado diretor nas telas, a suposta despedida cruza a fronteira dos cenários fantásticos e pela primeira vez se apoia em fatos reais para contar a história de Jirô. O protagonista é um sonhador que alimenta a fantasia de se tornar um piloto de aviões desde criança, mas é sentenciado a ficar com os pés grudados no chão por conta de uma miopia. Como a cabeça  permanece nas nuvens ele se inspira na figura do engenheiro aéreo italiano Giovanni Battista Caproni, e abraça a carreira de projetista de aviões.
  

Miyazaki visita os sonhos do protagonista, onde aproveita para escapulir das amarras realistas. Por lá ele sobrevoa lugares fabulosos, onde Jirô tenta dar forma ao seu avião imaginário. Além de explorar a poesia delirante pelo qual o Studio Ghibli ficou célebre, o plano onírico pondera sobre a controvérsia em torno das implicações morais implícitas nas escolhas de Jirô.  "Você tem que decidir se prefere viver em um mundo sem pirâmides. Aviões são destinados a se tornarem ferramentas para matança e destruição, e ainda assim eu escolho um mundo com pirâmides", afirma a versão imaginária de Caproni em um dos sonhos.

Enquanto as nuvens negras da guerra se formam na Europa, o designer entende que a única saída para concretizar sua genialidade será construindo máquinas de matar. Entre guerras, abalos sísmicos e financeiros, Jirô tenta encontrar espaço para o amor.  A história tem um ritmo sereno, se permitindo a um interlúdio no campo, quando o relacionamento entre Jirô e Naoko floresce. A porção romântica na trama pegou emprestadas partes da vida do poeta Tatsuo Hori, autor do conto homônimo que a principio inspirou Miyazaki a produzir o mangá sobre Jirô Horikoshi.

Como em muitos dos filmes de Miyazaki a perspectiva da escala humana em relação ao poder da natureza é outro componente familiar. Seja no impacto do terremoto que devastou Tóquio em 1923, ou no surto de tuberculose que mantém a esposa afastada fisicamente de Jirô, seus personagens estão em constante conflito contra as forças primitivas do mundo.

Apesar disso, o foco de “Vidas ao Vento” é a destruição que os humanos podem causar a si mesmos. O filme não debate os rastros que a inventividade de Jirô deixou na História, lançando a questão no ar, cristalizada na visão melancólica de centenas dos famigerados aviões Zeros, partindo para consumar seu destino. 

Possivelmente, esse seja o trabalho que mais reflita os conflitos internos de Miyazaki, que assim como o herói da história teve que fazer várias concessões ao longo da carreira para materializar sua visão. Não é o mais memorável das animações do cineasta, mas se for mesmo seu derradeiro filme é uma fascinante carta de amor às engrenagens intricadas da construção artística.

“Vidas ao Vento” confronta as aspirações criativas diante um mundo violento e alheio a escolhas éticas. A trama baseada em fatos reais não diluiu a poesia visual do Studio Ghibli, que se aproveitou de um período repleto de transformações tecnológicas e políticas para compor a rica paleta do filme mais contemplativo de Miyazaki. 

Nota 8,0

“Vidas ao Vento” está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Não recomendado para menores de 12 anos 
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