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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Crítica: Russel Crowe navega por águas estranhas no épico 'Noé'




Uma Jornada Inesperada>>>            
Parte integrante da geração que revelou grandes nomes como Christopher Nolan e Wes Anderson, o cineasta nova-iorquino Darren Aronofsky provou ter um senso bem claro do que gostaria de levar para as telas. Após dois filmes bem recebidos, sua trajetória em ascensão foi interrompida pelo enigmático “A Fonte da Vida”, uma esotérica mistura de romance, drama e ficção científica, que arrecadou metade do orçamento de 35 milhões. A fria recepção colocou Aronofsky no limbo, forçando o diretor a operar em uma escala reduzida. Com pouco dinheiro, ele acabou realizando “O Lutador” e “Cisne Negro”, dois dos seus melhores filmes. O interesse renovado permitiu ao cineasta se aventurar por águas profundas com a adaptação de um dos capítulos do Livro do Gênesis no filme “Noé”.

A trama é a mesma ensinada nos relatos religiosos: um dilúvio está a caminho para expurgar o planeta da maldade humana e Noé (Russel Crowe), guiado por visões e um punhado de milagres, deve construir uma arca para salvar parte da Criação. Usando o caminho espinhoso da tradição judaico-cristã como orientação, o filme toma liberdades estéticas que o aproximam da fantasia histórica de “Excalibur”, obra visualmente singular de John Boorman e impregnada por uma atmosfera perturbadora.

Fiel ao espírito das hipérboles fabulosas do Velho Testamento, poderes e criaturas mágicas são acontecimentos mundanos no roteiro de Ari Handel e Aronofsky. A presença de intérpretes do calibre de Crowe e Ray Winstone funciona para estabelecer alguma densidade dramática onde esse universo incrível pudesse se apoiar. Representando os vícios da humanidade corrompida, Tubalcain (Winstone) é um líder tribal impiedoso disposto a conquistar seu espaço a qualquer custo no barco abençoado de Noé. A atuação de Crowe e Winstone é o que mantém a narrativa coesa. Crowe faz bom uso da figura impositiva na construção do estoico homem de fé. Ao cercar de magia e sinais pouco sutis dos desígnios dos céus, o roteiro retira o arbítrio de Noé, transformando-o em uma força monolítica nesses tempos antediluvianos. Quando a dúvida cruel se apresenta afinal, fica difícil se identificar com qualquer conflito interno do personagem.


A traição entre sangue do mesmo sangue é um dos temas recorrentes da mitologia judaica e instintos básicos, como o desejo, podem envenenar a empreitada de Noé. Cam (Logan Lerman) é o elo mais fraco, insatisfeito com a falta de opções femininas na arca do seu pai, ele não compartilha do senso de desapego do resto da família. A bela - e aparentemente imune aos sinais do tempo - Jeniffer Conelly repete a parceria iniciada com Aronofsky em “Réquiem para um Sonho”. Ela interpreta Naamá, a dócil esposa de Noé que, ao lado de Ila (Emma Watson), Sem (Douglas Booth) e Jafé (Leo McHugh Carroll) são os cordeiros obedientes ao grande plano de destruição em massa da raça humana. Sob a maquiagem e trapos centenários, Anthony Hopkins vive Matusalém, o avó de Noé, um eremita exilado no alto de uma montanha. Hopkins incorpora um Yoda matreiro, dando passes de mágica para a história seguir adiante.

Ao representar os anjos caídos na forma de criaturas rochosas, “Noé” parece ter cruzado a fronteira com a terra-média. O mundo apocalíptico criado no filme é propositalmente ambíguo, podendo se passar há quatro mil anos, como estabelecido no Gênesis, ou em futuro distante.
Antecipando o naufrágio que estava a caminho, a Paramount perdeu a fé no filme e deu um freio no orçamento de mais de 130 milhões de dólares, pois os efeitos especiais criados pela Industrial Light and Magic são constrangedores. Quando os pares de animais entram em cena, a computação gráfica grosseira traz à lembrança o nível de produções de dez anos atrás.


O cinematógrafo e fiel escudeiro Matthew Libatique experimenta soluções visuais instigantes, como o uso de técnicas de animação para contar a evolução da vida. Uma das melhores sequências é a visão do inferno na Terra criado pelos descendentes de Caim. Mas, no geral, poucas imagens ficam guardadas na memória. Apesar do escopo épico, Aronofsky realizou seu trabalho menos inspirado. A mistureba de mitologia bíblica, fantasia contemporânea e alerta ecológico foi uma ideia ousada que resultou em uma aberração disforme, capaz de incomodar tanto a devotos como a infiéis. Com o tempo, a natureza insondável de “Noé” pode convertê-lo em objeto de culto, ascendendo ao paraíso dos incompreendidos.


Nota 7,0


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